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O cineasta fala sobre a importância de contar boas histórias e a possibilidade de um futuro em que realidade física e virtual se misturam
Tadeu Jungle é um dos artistas mais multitask do audiovisual brasileiro. Ele atua como cineasta, fotógrafo, poeta, roteirista, diretor de cinema, TV e realidade virtual, além de ser um dos colaboradores do projeto Trip Transformadores. Ex-sócio e fundador da Academia de Filmes, ele criou em 2018 a Jungle Bee, produtora focada em realidade virtual e aumentada para empresas e ONGs. Foi lá que ele produziu "Rio de Lama”, documentário sobre a tragédia de Mariana, em Minas Gerais, premiado pela ONU.
No papo com o Trip FM, Tadeu fala sobre sua carreira, como envelhecer como um profissional de mídia, a necessidade humana de ouvir histórias e o possível futuro híbrido entre a realidade física e virtual. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir.
[AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/3/TripFM_TadeuJungle_Podcast.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/605e48e899802/tadeu-jungle-trip-fm-mh1.jpg]
Trip. Tadeu, como é que se lida com o tempo? É normal hoje, dependendo do campo e da indústria, que a gente fale que as pessoas são postas de lado aos 40 e poucos anos. Como é pra você? Você lembra que você tem 65 anos?
Tadeu Jungle. Esse é um tema muito interessante, porque não só tenho 65 como existe uma coisa chamada idadismo, que é justamente o preconceito contra a idade. Eu acho que eu continuo ativo e com antena absolutamente ligada porque essa é uma característica minha desde sempre. Sempre fui ligado no novo, na transformação, na vanguarda, no risco. Eu não tenho uma carreira. “E o Tadeu, faz o quê?” Na verdade, o que eu faço é criar histórias e ser um cara bom de ideias, mas isso só foi possível porque eu trabalhei e estive na televisão, no cinema, na internet, no jornal, na poesia visual dentro do teatro com o Zé Celso. Então tenho um conhecimento de linguagens de muitos lugares. O Décio Pignatari uma vez me fez o que eu imaginei que tivesse sido uma crítica, mas hoje acho que foi um elogio. Ele falou: “Você é um especialista do não-específico”. E eu acho que isso é uma medalha que eu ganho, porque eu articulo muito e em vários locais, tenho vários pontos de vista. São as mulheres que me ensinam a cada nova empreitada e a ideia, que se fala muito hoje, tem que continuar aprendendo. Tem que continuar estudando!
Você tem que estar fuçando todo dia coisas novas, ouvindo coisas novas, porque tudo de transformador está aí, na internet, nos podcasts, nos TEDs, nos festivais internacionais e nacionais, na Trip… Você tem que ir atrás, porque se você fica esperando não vai transformar o mundo. E ele mostra, através da pandemia inclusive, que nós estamos à beira de um lugar muito crítico, que são as mudanças climáticas. Estamos vendo um horizonte de término, mas esse horizonte também vai ser o nascimento de uma outra grande preocupação, que são as causas ambientais. E se você não estiver ligado no futuro, na transformação, você vai se afogar, literalmente. Então eu tenho muito prazer em fazer essas novas ligações, por isso que eu entrei também na realidade virtual e na realidade aumentada. Tive que aprender tudo para poder fazer uma narrativa de realidade virtual. Ou seja, respondendo a sua pergunta, profissionalmente eu sou reconhecido como o cara de inovação porque eu sou um cara de inovação. Eu estou todo dia nessa busca para conhecer o novo e o diferente, para poder transformar o mundo num lugar melhor para todo mundo.
[IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/605e491d27adc/tadeu-jungle-trip-fm-mq1.jpg; CREDITS=Fernando Lazlo / Divulgação; LEGEND=Tadeu Jungle; ALT_TEXT=Tadeu Jungle Retrato Camisa Preta]
O que a publicidade te ensinou e onde ela foi parar? A publicidade, para você ter ideia, me ensinou a fazer cinema. Eu entrei no primeiro set de filmagem no dia em que fui fazer minha primeira publicidade. Aí eu entrei e pensei: “Como é que eu falo agora? Será que é 'luzes, câmera e ação'?”. Te juro que foi isso. Então na publicidade passei 15 anos filmando e teve meses que eu fiz oito filmes. Eu tinha duas assistentes, quase cheguei a ir de helicóptero de um set para o outro. Eu fiz dois filmes no mesmo dia, na mesma praia. A publicidade é um lugar muito bacana para quem tem criatividade e confiança porque você tem a melhor assistente de direção, a melhor fotógrafa, a melhor diretora de arte, o melhor montador, você tem tudo que você quer. Então se você sabe o que quer e é bom numa reunião, sabe colocar as ideias, e tem aquela equipe toda, é muito fácil fazer. Mas o que eu gosto são dos desafios em que eu tenho um horizonte quase físico. Eu não conseguia apagar isso em mim: essa questão de fazer: eu mesmo fazer, eu mesmo pintar, eu mesmo bordar.
Então a publicidade me deu muito aprendizado e muita força. Foi onde eu consegui sobreviver, era onde estava o dinheiro. Mas hoje acabou. Ou é uma peça de humor onde o cara tem uma puta de uma sacada, trabalhou com grande artista conhecido dele ou de uma produção absolutamente incrível e o cara fala “Nossa, que obra! Que brilho! Que viço! Que luz!” ou então você ficar fazendo o filme para dizer que a marca é isso ou aquilo e não cola mais. A verdade passou na frente da publicidade, então as coisas que são reais, as causas, estão na frente da imagem que eu tento fazer parecer como sendo da minha empresa. Só que tem muito dinheiro e tem preguiça, medo do risco. As empresas têm medo do risco.
[IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/605e49982c4e2/tadeu-jungle-trip-fm-mh2.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Stevens Rehen, Tadeu Jungle e o engenheiro e pesquisador Fabio Cozman discutem a relação complexa entre as máquinas e seus algoritmos e a nossa sociedade ; ALT_TEXT=Tadeu Jungle Stevens Rehen Fabio Cozman Trip Com Ciência Podcast]
Não queria terminar sem te perguntar sobre uma coisa que está mais uma vez pegando o Brasil de jeito: o Big Brother. Até um tempo atrás, os intelectuais torciam o nariz e ninguém falava que via. Agora os canais de cultura, os cadernos de cultura dos jornais, estão assim: disputas entre as visões, leituras semióticas, as leituras filosóficas, psicanalíticas e tal. O que você acha do Big Brother? Eu acho que é um grande fenômeno de 2020, no mínimo. É um programa longevo e você poderia pensar que estaria em declínio – está todo mundo confinado mesmo, por que eu vou assistir outros confinados? O que aconteceu foi que eles fizeram um grande elenco, grandes personagens, para compor uma grande história. Pensa bem, se você colocasse 20 chuchus ali dentro não ia dar certo, né? Mesmo sendo o Big Brother, a Globo, não dava nem uma salada. Mas o elenco misturou tudo o que foi possível, contemporâneo, sushi com churrasco, pimenta e colocou aquilo de tal forma que deu essa liga. Não acredito que seja assim o próximo.
O Boni, numa entrevista que eu fiz com ele há dez anos, ou mais, falou assim: “Se você colocar o Antônio Fagundes num close, na frente de uma tela, e ele ler uma obra de Dias Gomes, eu garanto para você que as pessoas não desligam. E que a audiência vai ser maior do que o pico próprio”. Tem muita razão porque o que ele apontava ali era a importância da história e a gente vai continuar querendo ouvir histórias para sempre. E não são histórias interativas, histórias no game… Histórias! Uma boa história! O livro vai continuar fazendo sucesso daqui a cem anos. Por mais que a gente viva numa realidade totalmente virtual e interativa, vivendo em Marte, nós ainda vamos querer ouvir a nossa mamãe, em algum lugar, contar para nós uma história. Então acho que a importância da história não deve ser esquecida em todas as narrativas. E o Big Brother colocou isso de uma maneira muito visceral com esse grande casting.
[IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/605e49f7167fa/tadeu-jungle-trip-fm-mq2.jpg; CREDITS=Tadeu Jungle; LEGEND=A instalação e intervenção urbana "Você Está Aqui", do cineasta, fotógrafo, poeta e artista visual, Tadeu Jungle, no Mac Usp, de São Paulo; ALT_TEXT=Instalação Mac Usp Fachada ] |