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Podcast: O Mundo Agora
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O Mundo Agora - Vendaval no espaço aéreo europeu: o caso da Belarus

Category: News & Politics
Duration: 00:04:51
Publish Date: 2021-05-31 16:49:37
Description: O espaço aéreo europeu pode ser tão complicado quanto o espaço físico abaixo dele. Para dar um exemplo: se você voar três horas e meia ou quatro, de Berlim a Lisboa, que é mais ou menos o tempo de um voo direto de São Paulo a Fortaleza, vai atravessar o espaço aéreo de oito países, incluindo os pequenos Luxemburgo e Andorra, passando por dez línguas diferentes, cada uma com seus dialetos que muitas vezes não se entendem entre si. Flavio Aguiar, de Berlim Essa complexidade revelou todo o seu potencial dramático  na semana passada, quando um voo da empresa Ryanair, da Grécia para a Lituânia, foi interceptado no espaço aéreo da Belarus (país também conhecido como Bielo-Rússia ou Rússia Branca) e forçado a pousar em Minsk, a sua capital. Na sequência as autoridades bielo-russas retiraram do aparelho dois passageiros: o jornalista e dissidente Roman Protasevich e sua companheira Sofia Sapega, e os detiveram. O acontecimento provocou um verdadeiro vendaval no espaço aéreo europeu e também em terra. O governo bielo-russo de Alexander Lukashenko foi acusado por vários países da União Europeia de um duplo sequestro: do avião da Ryanair e dos dois passageiros detidos, sendo ele, Protasevich, um reconhecido crítico do regime de Minsk. Estreito aliado da Rússia Depois da Segunda Guerra Mundial a Bielo-Rússia tornou-se parte da antiga União Soviética. Com a crise e a dissolução desta, tornou-se independente a partir de 1990. Em 1994 Lukashenko foi eleito presidente, permanecendo no cargo até hoje, vencendo várias eleições no meio do caminho, mas acusado com frequência de ter um estilo ditatorial de governar. Hoje o governo bielo-russo é visto como um estreito aliado da Rússia de Vladimir Putin, embora mais recentemente Lukashenko tenha promovido um certo nacionalismo no país. Ele notabilizou-se também, a partir da pandemia do novo coronavírus, por algumas atitudes tidas como negacionistas, aconselhando, por exemplo, o uso moderado da vodka contra a doença, assim como no Brasil o governo de Bolsonaro aconselhou a ineficaz cloroquina. O avião da Ryanair foi desviado para Minsk por um caça de guerra da aviação bielo-russa, depois da denúncia de haver uma bomba a bordo, coisa que se provou ser falsa. Seguiu-se uma torrente de especulações, acusações e retaliações de parte à parte. Vários países da União Europeia fecharam seus espaços aéreos para aviões bielo-russos, e seus aviões comerciais passaram a evitar o espaço aéreo deste país.  Surgiram especulações variadas sobre um suposto papel da Rússia no incidente. Segundo uma delas, o governo russo teria estimulado Lukashenko a sequestrar o avião, prevendo as retaliações que se seguiriam contra a Bielo-Rússia. Isto forçaria uma aproximação maior entre Moscou e Minsk, num momento em que Lukashenko vem tomando iniciativas de reforçar o nacionalismo em seu país. Chegou-se a levantar a suspeita de que quatro cidadãos russos ou bielo-russos teriam descido do avião em Minsk, no que provou-se um rebate falso. Até o momento não surgiu qualquer prova do envolvimento russo no incidente. O que é certo, no entanto, é que num encontro que já estava previsto há tempos entre Lukashenko e Putin, na cidade de Sochi, na Rússia, às margens do Mar Negro, este garantiu àquele o oferecimento de um novo empréstimo de US$ 500 milhões. Além disto, Putin determinou que haja entendimentos para ampliar os voos entre os dois países, no sentido de compensar a perda do espaço aéreo europeu por parte da Belavia, a companhia aérea da Bielo-Rússia e assim facilitar o trânsito de bielo-russos para e da Europa Ocidental. Segundo Dmitry Peskov, porta-voz do governo moscovita, Putin levantou o tema da situação de Sofia Sapega, a companheira de Protasevich, uma vez que ela é cidadã russa. Dmitry anunciou que a Rússia vai acompanhar de perto a situação. Brecha em um “muro” hostil Para se entender o interesse da Rússia em apoiar Lukashenko, basta dar uma olhada na fronteira ocidental da Rússia, do Mar de Barents, ao norte, ao Mar Negro, ao sul. Uma verdadeira “Cortina de Ferro” cerca da Rússia, formada por países de governos hostis a ela: Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia e Ucrânia. O único ponto de abertura nesta barreira é a Bielo-Rússia, que ainda se interpõe entre a Rússia e a Polônia, outro país cujo governo também é hostil ao Kremlin. De quebra, Minsk está a cerca de 400 quilômetros (a distância entre São Paulo e Rio de Janeiro) do enclave russo de Kaliningrado, às margens do Mar Báltico. Manter a influência sobre esta verdadeira brecha naquele “muro” hostil que cerca a Rússia é estrategicamente vital para o governo de Moscou. Bloqueio do avião de Evo Morales Um tema colateral que o sequestro do avião da Ryanair levantou foi o do bloqueio do avião do então presidente boliviano Evo Morales, em julho de 2013, que retornava a seu país de um encontro de países produtores de gás realizado em Moscou. Os Estados Unidos levantaram a suspeita para seus aliados na Europa de que o avião presidencial levaria a bordo, clandestinamente, o whistleblower Edward Snowden, que acabara de se asilar na Rússia. Imediatamente, Espanha, Itália, França e Portugal fecharam seus espaços aéreos para o avião de Morales, que fez um pouso forçado em Viena, na Áustria, devido a problemas de combustível. Na capital austríaca o avião acabou sendo “informalmente” revistado, a pretexto de se verificar qual seria o problema que levou ao pouso forçado. Constatado que Snowden não estava a bordo, o avião foi autorizado a prosseguir o voo, reabastecendo-se ainda uma vez nas Ilhas Canárias, arquipélago espanhol no norte do Atlântico. Todos os governos envolvidos pediram desculpas ou apresentaram explicações a Morales, menos o dos Estados Unidos, que apenas reconheceu o alerta passado aos outros países sobre a suposta presença de Snowden no avião. Não houve declarações enfáticas nem quaisquer investigações sobre o episódio, e tudo ficou por isto mesmo. A comparação dos dois episódios mostra que até mesmo o cidadão comum, ao sobrevoar a Europa, deve prestar atenção não só de onde vai para onde, mas também por onde vai passar. Caso contrário, poderá ter a triste sorte de Protasevich e Sapega, literalmente sequestrados por estarem no céu errado na hora errada, presos na emaranhada teia geopolítica que é o espaço aéreo europeu. 
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