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Depois de dois anos de tsunami na economia mundial, um céu nublado paira sobre 2022. O avanço vertiginoso da variante ômicron da Covid-19, já majoritária nos países desenvolvidos e em vias de espalhar pelo hemisfério sul, abala as expectativas de uma retomada robusta neste ano, mas o otimismo quanto à superação da fase mais dramática da pandemia permanece.
O cenário de transtornos sob controle ganha força nos países atingidos em cheio pela nova onda, na medida em que o número de casos explodiu e o de hospitalizações, cresceu – mas o de mortes permanece relativamente baixo, na comparação com as variantes anteriores do coronavírus. A maior parte dos atores econômicos se mostra inclinada a acreditar que 2022 será o ano em que o mundo vai finalmente conseguir conviver com a Covid-19 e limitar seus estragos. Foi o que ocorreu na África do Sul, berço da ômicron, uma cepa mais contagiosa, porém menos grave, especialmente em pessoas vacinadas contra a doença.
"Tem muitas empresas e investidores que estão apostando numa recuperação, ao aceitar a versão de que a ômicron é a variante que vai levar ao enfraquecimento do vírus. Isso explica por que teve uma valorização de ações de companhias de cruzeiro e aéreas como a Air France, entre outras”, afirma Gabriel Gimenez-Roche, professor de Economia da Neoma Business School, na França. "Os preços das ações refletem as expectativas de ganhos futuros.”
FMI prevê rebaixar previsões de crescimento
As incertezas permanecem – a Covid-19 ainda pode levar anos para se tornar banal. Em dezembro, o FMI alertou que, devido à ômicron, vai revisar para baixo a sua previsão de crescimento econômico mundial para este ano, de inicialmente 4,9%.
A atual onda de contaminações trouxe a volta de restrições de deslocamentos, principalmente nos países europeus, que enfrentam a chegada da variante em pleno inverno. Essa situação tende a se repetir pelo mundo e a gerar problemas como a redução do pessoal nas empresas, frisa André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, de São Paulo. Ele avalia, porém, que fechamentos drásticos como os que ocorreram em 2020 e 2021 não voltarão mais a se repetir.
"A ômicron pode criar uma diminuição da força de trabalho significativa ao longo dos próximos meses, que tende a se normalizar a partir de junho. Sim, é um transtorno. Sim, vai ser difícil para todos os países. Mas agora a questão é menos da reação do poder público e mais objetiva, de a pessoa contaminada não poder ir trabalhar por alguns dias”, explica o consultor.
Comércio mundial
Um foco de preocupações é o comportamento da China, um dos motores da economia mundial e que permanece inflexível na sua estratégia de "zero Covid”. Entretanto, o país tem demonstrado ser capaz de promover fechamentos radicais e temporários apenas nas cidades atingidas por casos, porém sem interromper a atividade no restante do território chinês.
"Talvez não vá ter uma acelerada brutal da recuperação, mas ela ocorre. Talvez seja um pouco mais lenta, mas ela está acontecendo”, frisa Gimenez-Roche. "O problema mais é para o outro lado, dos que pedem encomendas dos chineses. É isso que ainda fica mais paralisado, já que os portos fecham, os aeroportos diminuem o fluxo", salienta.
Inflação mundial
Para o professor da Neoma Business School, a maior ameaça à retomada é a inflação – que, segundo ele, chegou para ficar. "Há uma inflação mundial, na Europa, nos Estados Unidos, onde chegou a um pico de 6% anual. O problema é que quanto mais durar a ameaça do vírus, mais teremos dependência de políticas públicas para sustentar a economia, como as ajudas para certas indústrias, o seguro-desemprego prolongado. Só que isso não se financia sozinho”, destaca. "Tem muito dinheiro dos Bancos Centrais circulando para sustentar tudo isso – e esse dinheiro vai se converter cada vez mais em inflação."
Nos países onde a pressão inflacionária já é um problema, como o Brasil, o efeito recessivo se torna devastador para a economia como um todo. André Perfeito observa que, tradicionalmente, anos eleitorais movimentam mais verbas públicas, para a finalização de obras, por exemplo. Mas esses investimentos não bastarão para livrar o país de mais um ano difícil.
"A atividade econômica no Brasil vai ser muito próxima de zero neste ano”, sentencia. "O rendimento das pessoas caiu muito com a inflação. Em termos reais, o rendimento médio real habitual do IBGE está no patamar de março de 2012. Esse é o tamanho da desaceleração da renda das pessoas”, comenta o economista. |