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"Entre Chien et Loup" de Christiane Jatahy conta uma história que já foi contada sem a repetir. Este é o desafio dos dez actores que sobem, todo os dias, ao palco da Autre Scène du Grand Avignon, no festival de teatro de Avignon.
A peça da encenadora brasileira, Christiane Jatahy, é uma adaptação de Dogville de Lars Von Trier. O dispositivo em cena em Entre Chien et Loup cruza as fronteiras do real e irreal, levando os espectadores a sentir emoções vertiginosas.
RFI: Entre Chien et Loup é uma expressão usada quando não se consegue distinguir um cão de um lobo no escuro. Porque motivo escolheu este título?
Christiane Jatahy: Essa expressão também tem uma relação do cão e do lobo, sobre essa mudança de comportamento de animal domesticado e afectuoso que vive dentro de um contexto familiar, quando esse animal vira e te pode atacar, quando existe uma transformação e a sombra vem à tona. É difícil traduzir a expressão para português porque ela é sobre o poente, é sobre o momento em que o sol se põe, a passagem do dia para a noite. No Brasil chamamos-lhe de crepúsculo, mas é o momento em que não consegue definir tão claramente as coisas.
E que perigo é esse?
Este trabalho é para falar muito do que está a passar hoje no Brasil. Infelizmente o Brasil é um exemplo mais claro disso, mas é um risco que corremos no mundo todo. A passagem de quando o fascismo começa a vir e não conseguimos perceber. Vivemos esta experiência e estamos a vivê-la de uma maneira muito traumática e o mais impressionante, para mim, foi que não nos demos conta. A ameaça existe realmente e começamos a conviver com pessoas que começam a ter um discurso que são um pouco nebuloso, um pouco entre chien et loup.
Uma espécie de normalização...
Uma normalização de um discurso que se vai transformar num discurso fascista, mas anteriormente ele confunde a defesa de privilégio com a defesa de direitos. Nasce sempre sob a questão de querer manter determinados privilégios, que colocam o outro como uma ameaça sobre o que você acha que vai perder porque o outro vai ganhar, mas é sobre o que isso acaba levando. O risco que vivemos hoje, que no Brasil estamos realmente a viver num governo fascista.
Christiane, fala de riscos, mas também desta espécie de cegueira de não conseguirmos ver estes crescentes movimentos extremistas no Brasil, mas também no mundo. Cabe-lhe a si, aos artistas e a quem conseguir alertar para esta cegueira?
Cabe a cada um de nós. A nossa responsabilidade é estar com os olhos muito abertos, sabendo que é preciso denunciar e combater. É muito importante pensar que o rosto não vem como um monstro, o lobo não se apresenta e chega mesmo a ser difuso. No Brasil todo esse movimento começa com manifestações que não são de extrema-direita, não têm como objectivo que o fascismo suba ao poder.
É uma insatisfação que depois vai ser apropriada por um discurso da direito e essa apropriação vai ser normalizado com determinados pensamentos que não conseguimos imaginar que vão ser práticos porque parecem ser só ideias, mas o plano das ideias é sempre um plano da acção. Não podemos achar que se é uma ideia ela não se vai transformar em acção e o que aconteceu no Brasil foi isso. Houve uma falta de percepção da gravidade do que estava a acontecer. É assim que o fascismo nasce, nasceu no Brasil e antes na Alemanha, que gerou um movimento nazista, também é uma eleição democrática.
A peça traz essa inspiração e ao mesmo tempo representa um microcosmo. Inspirei-me em Dogville de Lars Von Trier e é um diálogo sobre esse filme, um enfrentamento, uma tentativa de mudar não o filme, mas a tragédia e o abismo onde o filme cai. A luta da peça é lutar contra esse abismo, que na verdade também é uma metáfora sobre a luta para evitar a subida do fascismo.
Porquê Dogville?
Dogville surge por dois motivos; porque me interessava continuar a pensar na perspectiva da relação do teatro e cinema. Como é que me aproprio de um filme que foi marcante para mim, por diferentes motivos, levo-o para cena e isso ganha uma perspectiva de uma relação invertida, de certa forma, o cinema vai para o teatro para voltar a ser cinema. Ao mesmo tempo quando assisti ao filme, quando saiu, foi muito impactante para mim por vários motivos, nomeadamente por motivos negativos. Ele trata de uma temática e faz isso muito bem, mas ao mesmo tempo gera uma violência que me foi muito difícil de lidar. O Lars Von Trier faz o oposto, porque é bastante brechtiano e ele leva o teatro para o cinema para fazer um filme eu trago o cinema para o teatro para fazer teatro. Existe aqui também um jogo formal que me interessa num diálogo artístico à distância através de uma obra e a questão do fascismo é que o ser humano deixa de ser visto como um ser humano e passa a ser tratado como um objecto. Um objecto que pode ser explorado e destruído, ele é desumanizado.
É o que acontece com a Grace (Dogville) e com a Graça (Entre Chien et Loup), quando é que começamos a perder a perspectiva de que o outro é igual a mim, de que o outro é um ser humano e que podemos usá-lo como um objecto. Não é diferente do que se faz com índios no Brasil ou o que se faz há séculos e séculos com afro-descendentes.
Fala de muitas fronteiras. Fala da fronteira da humanização, do teatro e do cinema, do real e do irreal, do palco e do público. Falar de fronteiras é também uma forma de acabar com elas?
Trabalho com fronteiras para borrá-las, para juntar os territórios, para entender nessa intersecção. No Agora que Demora, que apresentei no festival, falávamos sobre a fronteira, dos sete metros que se chama a terra de ninguém. São sete metros de espaço vazio e o que tento fazer é diminuir esses metros e pensar na perspectiva da intersecção, de como criar overlaps, como é que se percebe que é sobre o encontro. Não é ou teatro e cinema é entre teatro e cinema, entre actor e personagem, entre o próprio espaço do espectáculo e o público. Podendo caminhar nesse território sem criar anteparos podemos ser mais livres para descobrir novas possibilidades de relação, de olhar o outro. Não no sentido de inovação, mas de relações humanas e responsabilidade.
O manifesto de Dogma 95 criado por Lars Von Trier e Thomas Vinterberg procura através de dez pontos a exploração de actores e do espaço, numa tentativa quase de voltar ao teatro antigo, aproxima-se desta procura 'mais fiel' para o público e para os artistas?
O Dogma 95 interessa-me muito pela criação de dispositivos. A ideia de que você cria uma estrutura, dispositivos pode ser libertador. Tinha uma relação com a ideia de libertar o cinema, no sentido de estar encaixado em determinadas formas para ele poder existir, mas também tinha um lugar democrático pelo facto de todos nós podermos fazer. Como disse, também essa ideia de proximidade com os actores, uma relação muito viva com o que está a acontecer. Sou uma apaixonada pelo Vinterberg e acho do Lars Von Trier muito inteligente e usa muito bem os dispositivos. Sou uma pessoa muito estruturalista como artista no sentido de criar estruturas para saltar. Não crio estruturas e dispositivos para fixar, mas para saltar.
Eu trabalho o dispositivo cinematográfico na cena não só pela ideia da projecção, mas pela utilização de todos os dispositivos cinematográficos, inclusive a relação com a câmara. É dentro da dramaturgia, a câmara está dentro do próprio jogo cénico e são os actores que manipulam a câmara e estão a fazer uma experiência cinematográfica. O exercício da experiência cinematográfica dialoga com a ideia do Dogma e tudo se vai confluindo para criar ferramentas para uma experiência que passa pelo cinema para chegar ao teatro. |