Search

Home > Aquele gajo do metro > Ponto de exclamação, de Guilherme Dias e lido por João Cinda
Podcast: Aquele gajo do metro
Episode:

Ponto de exclamação, de Guilherme Dias e lido por João Cinda

Category: Arts
Duration: 00:03:22
Publish Date: 2013-02-25 16:04:26
Description: itunes pic
Música: Sad Romance Classical de scottyroth1 (youtube) Há uns 10 anos para cá, no dia seguinte ao meu aniversário, levanto-me da cama, tomo banho, lavo os dentes, visto-me, como e saio de casa. Apanho o autocarro das 9h que segue vazio. Grudado à janela, de olhos postos no asfalto, vou deslizando até ter o pescoço encostado ao banco. O motorista não olha para mim, o rapaz que vai atrás de mim não olha para mim, a mulher suada a meu lado não olha para mim. Os mesmos pensamentos de sempre, sem descanso nem misericórdia, desfazem a realidade que me rodeia. Oiço um estrondo, vejo os estilhaçar de vidros, sinto todos à minha volta a rodopiar impotentes. Deflagra um incêndio, o motorista foge a arder, e o asfalto continua a acelerar, a abrandar, a arrancar, a parar, a escurecer, a ensanguentar-se. Eu sei que nada disto está acontecer. Sei que só eu posso sentir emoções. Sei que os outros não passam de robots a querer passar por algo parecido comigo. Sei que o motorista nunca fugiria do autocarro, nem que estivesse a arder. A mulher ao meu lado, suada, com os sacos de compras aos pés, olhar incompreensível para alguém como eu; esta mulher que não me olha e que eu não olho, não fugiria se caíssemos num rio. Ficaria sentada, calma, e os seus pulmões encher-se-iam de água até que o último suspiro saísse da sua boca cansada. Sei que o autocarro nunca chegará ao seu destino e a mim resta apenas ir saindo nas paragens que não quero. Se o rapaz sentado atrás de mim fosse algo de humano galgaria em dois saltos até ao volante e impedia o motorista de nos matar. Mas ele também não me olha e eu não o oiço. Vou sozinho. O motorista vai sozinho. A mulher vai sozinha. O rapaz vai sozinho. Mas não vamos todos sozinhos. Não vamos, porque não há todos. Eu nunca serei parte de um todos, nem o será o motorista. Esse, cordialmente, ignora os passageiros que acenam ao autocarro e o asfalto já não abranda. Eu sei para onde vou, porque eu existo e tenho sentimentos. Por isso mesmo tenho pena do motorista, da mulher, do rapaz. O que eles sentem não existe, porque ninguém os olha, tal como ninguém me olha, nem ouve. Sei que o hoje não existe e o amanhã é uma construção abstracta de quem se pensou olhado. Sei que Outubro não é diferente de Janeiro e este autocarro não é diferente de mim, da minha carne. Se dois olhos entrassem, por aquela porta que o motorista não abre, chorariam e talvez o rapaz também chorasse. A mulher levanta-se e abraça o rapaz, abraça-me a mim e eu afasto-a entediado, abraça o motorista e sai na paragem que não quer, desaparecendo como o asfalto. O rapaz começa a falar comigo, a implorar que o olhe, que o oiça, mas os meus olhos fogem dos seus. Preparo-me para sair. O autocarro pára. Saio na paragem de outra pessoa que deve ter roubado a minha paragem. Empoleiro-me na ponte e espero que me salvem do suicídio. Depois internam-me num hospital para pessoas que não páram de olhar para os outros. Guilherme Dias
Total Play: 0

Users also like

900+ Episodes
Mamilos 18K+     1K+
1K+ Episodes
Reprograme S .. 28K+     1K+
400+ Episodes
Quem Somos N .. 1K+     100+