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A Paralimpíada de Paris é palco de um debate primordial para as pessoas com deficiência. Muitos atletas paralímpicos estão rejeitando e rebatendo clichês e eufemismos, como a comparação a super-heróis. Daniella Franco, da RFI O debate teve início após declarações do campeão olímpico de judô francês Teddy Rinner, que comparou os esportistas paralímpicos aos Avengers, personagens da Marvel. “Eles têm uma deficiência que já é muito difícil de viver e eles conseguem fazer coisas inacreditáveis”, afirmou em entrevista à emissora de rádio e TV belga RTBF. Alguns dias depois, em entrevista à rádio francesa RTL, junto com a estrela do atletismo francês Marie-José Pérec, Rinner voltou a usar o mesmo tom para se referir aos esportistas paralímpicos. “Com uma deficiência, são eles os verdadeiros campeões”, afirmou o judoca. “O que as pessoas não entendem é que nós olhamos os paratletas dizendo que são nossos heróis porque nós sabemos o que é treinar todos os dias”, completou Pérec. A reação não demorou a chegar. O jogador francês de basquete em cadeiras de rodas, Sofyane Mehiaoui usou suas redes sociais para protestar: “não somos super-heróis, somos atletas”. Em seus stories, o esportista ainda deixou uma mensagem direta a Rinner, pedindo para o judoca deixar de “superexpor” as pessoas com deficiência. “É preciso que você pare de falar da gente desta forma, você não está nos ajudando”, sublinhou. Em sua conta no Instagram, Mehiaoui ainda publicou uma charge do ilustrador francês DAVMVP, em que o super-homem é representado jogando basquete em uma cadeira de rodas. Visivelmente enfrentando dificuldades, o personagem diz: “não é tão simples assim ser atleta”. Junto da imagem, o jogador de basquete escreveu: “É preciso ser o melhor em quadra, mas também combater os preconceitos”. Foco no desempenhoNessa primeira semana de Jogos Paralímpicos, a mobilização se reforçou. Vários atletas se manifestaram em prol da mesma causa, como a triatleta Nantenin Keita, porta-bandeira da França na cerimônia de abertura. Em uma entrevista ao jornal francês Libération, Keita fez um apelo ao público para que se “coloque de lado o aspecto patológico da deficiência” e o foco seja no desempenho dos esportistas paralímpicos. A imprensa francesa ajuda a propagar esse discurso. O jornal esportivo L’Équipe publicou nesta semana um editorial intitulado “Heróis como os outros”. O texto diz que antes de se falar em Paralimpíada é preciso escutar o que os atletas paralímpicos têm a dizer. “O que eles nos dizem? Que eles são esportistas de alto nível como os outros e que é preciso deixar de lado esse olhar capacitista para nos concentrarmos em seus desempenhos”, reitera o editorial do L’Équipe. Outro jornal francês, o Le Parisien, publicou uma edição inteira ontem falando da abertura dos Jogos Paralímpicos e um editorial com o título “Como todo mundo”, que é como os atletas paralímpicos querem ser considerados. Por isso o Le Parisien pede que a gente valorize os desempenhos e torça pelos esportistas que disputam a Paralimpíada como a gente faz com qualquer outro esportista. Acessibilidade de ParisOs Jogos Paralímpicos de Paris também suscitaram um debate sobre a acessibilidade da capital francesa. A cidade, que passou por uma grande renovação e realizou muitas reformas para acolher as competições e o público, está longe de ser uma referência de mobilidade. As principais críticas se concentram no metrô de Paris. Apenas 14% das estações de metrô de Paris são consideradas totalmente acessíveis e muitas não têm equipamentos básicos, como elevadores, o que interfere demais no cotidiano de quem têm mobilidade reduzida. Por isso, as autoridades pensaram em soluções mais imediatas para esse período de Jogos. Por exemplo, 100 minivans adaptadas foram mobilizadas pela administração da grande região parisiense para o transporte de pessoas com deficiência até os locais de competição. Mas nem todos puderam se beneficiar dessa alternativa. Durante a Olimpíada, por dia, 4 mil cadeirantes acessaram os locais de provas. Nos Jogos Paralímpicos, a estimativa é que 2,5 mil usuários de cadeiras de rodas frequentem por dia as competições. Outro questionamento é sobre o legado dos Jogos Paralímpicos. Atualmente, na grande região parisiense, há quase cinco milhões de pessoas em situação mobilidade reduzida, entre elas 62 mil cadeirantes. Cerca de € 1,5 bilhão está sendo investido na rede férrea de transportes de Paris para torná-la 100% acessível às pessoas com deficiências, mas calcula-se que essas reformas devem durar entre 15 e 20 anos. |