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Description:
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Nota: uma celebração em forma de Jazz para o amigo que tanto amou esse ritmo feito de resistência e poesia assim como ele próprio era feito. “A love supreme” – 1964 – John Coltrane (com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones).
Sobre um amor supremo
Fiquei muito tempo pensando no que escrever para meu amigo que se foi tão cedo. Concluí, não sem alguma dúvida, que 45 literários anos só poderiam ser vistos sob a perspectiva do culto máximo desse professor, filho, irmão, amigo, companheiro, namorado e tantas outras coisas que não cabem nas palavras: a Literatura. Personagem errático e fabuloso dentro de um conto do Cervantes. Sensível como um Samsa. Agreste como um Fabiano nas agruras de uma vida de securas. Combativo como um apanhador num campo vasto de centeio. Menino como um verso do Manoel de Barros no sítio do Lobato. Poético como um parágrafo de Clarice ou como um enigma insolúvel de Drummond. Rosa do povo vivendo o sentimento do mundo. Foi Quintana e foi Bilac nas suas simplicidades herméticas. Foi um Nassar navegando os Cânticos mais profundos da sua própria alma. Um Pound antenado na poesia do mundo. Um Brecht esperançoso por uma mudança que ainda não veio. Um Policarpo com o dedo em riste para um Brasil de sonho e delírio. Um contorcionista sentado numa cadeira como um pícaro do Suassuna. Um ouvido agudo para o Jazz cortante narrado por Cortázar. Uma pessoa de profundidades insondáveis, só compreendido mesmo pela Pessoa que se quebrou em muitos, que foi Bernardo, Álvaro, Ricardo… Para entendê-lo, talvez, só o voo de um Corvo chamado Poe. Enfim, foi um dândi sem sê-lo, foi dissimuladamente Wilde e tropicalmente Saramago. Byron de Azevedo das madrugadas desassossegadas. Borges e Coralina dos dias. Whitman das liberdades. Olhou ternamente – como Raquel, Carolina e João Cabral – o destino dos miseráveis. Perdeu-se casmurro na estrada de Kerouac. Flanou à brasileira como Baudelaire. Bradou feito um Leminski caipira dos Matos. Foi por vezes leve como Cecília. Foi Bandeira do velho Graça. Foi Amado e amou a vida e foi espancado por ela como João do Rio, Lima Barreto e João Antônio, foi flor e foi belo, foi cometa e rocha. Foi paradoxalmente vivo na morte. Foi tragicomicamente muitos. Macunaimou. Vida longa ao legado etéreo e às memórias póstumas de Bruno Curcino. Vida longa à Literatura. Até o último suspiro transformado em prosa e verso.
Com admiração, respeito e amizade,
Estéfani Martins por Verso da Prosa.
P.S.: caro irmão, você ainda vai tornar-se Literatura. |