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Quem nunca se viu no meio de uma intriga entre irmãos ou teve que resolver um mal-entendido qualquer com parentes próximos ou distantes? Esse tipo de conflito pode provocar separações e desencadear problemas de saúde, mas podem ser evitados, explicou à RFI a psiquiatra francesa Marie-Claude Gavard.
Os conflitos familiares são frequentes e fazem parte da história da humanidade, como ilustra a morte do imperador romano Júlio César. Vítima de uma conspiração de senadores, incluindo seu filho adotivo, Marcus Brutus, seu assassinato originou a expressão “Até tu, Brutus?”, usada quando alguém trai a confiança de outra pessoa.
Há maneiras de apaziguar os ânimos antes que a situação se torne insustentável, provoque rupturas e afete nossa saúde, explica a psiquiatra francesa Marie-Claude Gavard, autora do livro Mais qu’est-ce qui se passe dans ma tête? (O que será que está acontecendo com a minha cabeça?, em tradução livre). Ela lembra, também, que a família ideal é um mito, mas é possível transformar o lar em um local onde as pessoas podem e devem falar umas com as outras, sem interrupção e utilizando a comunicação não violenta.
“Dessa forma, todos têm o direito de se expressar, sem interrupção. Podemos explicar nossas necessidades, intenções e ouvimos qual é o sentimento do outro em relação ao nosso comportamento. Quanto todos podem tomar a palavra e têm o direito de falar sobre seu sofrimento, com gentileza, automaticamente há menos conflitos”, disse em entrevista ao programa da RFI Priorité Santé.
Segundo a psiquiatra, apesar de os conflitos familiares serem comuns, nem todos os lares vão vivenciá-los. “A discussão e a comunicação constituem a base de todas as relações humanas. Em uma família, se os pais são tranquilos, os filhos provavelmente também serão”, exemplifica.
O ser humano, explica a psiquiatra francesa, em geral tem pouca autoconfiança. Diante de uma crítica negativa, provavelmente uma pessoa romperá o diálogo ou partirá para a ofensiva e a conversa acabará em gritaria. “Para aceitar uma crítica, é preciso ter uma dose de autoconfiança. A crítica é, na verdade, uma oportunidade que nos ajuda a melhorar. Nas famílias, há em geral o que chamo de rotina de críticas, que via de regra são sempre as mesmas, e que continuam sem solução, porque o problema é mal colocado”, frisa. Reconhecer os erros, desta forma, é o primeiro passo para evitar os conflitos.
Existem famílias mais propensas aos “barracos” que provocam às vezes consequências desastrosas para os relacionamentos? Para a especialista, o que há são modelos familiares clássicos que reproduzem conflitos. Ela cita como exemplo o diálogo com os filhos. É comum os pais adotarem uma postura autoritária, para exigir respeito, mas as crianças crescem e buscam, com o tempo, uma relação mais igualitária. “As crianças têm ideias diferentes, vêm de uma época diferente e tudo o que querem é que os pais confiem neles”, afirma.
Sintomas indicam que é hora de consultar
Outro exemplo é a falta de comunicação entre casais, em que situações banais do cotidiano acabam tomando uma dimensão desproporcional. Para a psiquiatra, é importante achar uma solução possível ao descontentamento do outro. O objetivo é evitar que o acúmulo de decepções mútuas se torne insuperável e desencadeie sintomas físicos: insônia, irritabilidade e dificuldades de concentração são alguns deles.
“Quando começamos a ter sintomas, é preciso consultar seu médico para se ter certeza de que não se trata de um problema físico. Mas quando aparecem as crises de pânico e o coração acelera, temos que considerar isso como um 'presente' de nosso inconsciente, um sinal de alerta do corpo para que a gente coloque um ponto final em determinada situação, que não é justa”, diz. Ela lembra que o uso de ansiolíticos, em certos casos, é necessário, mas deve ser pontual. O que é preciso, opina, “é mudar a situação que está te consumindo, libertar-se, e parar de se submeter às circunstâncias.” |