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Durante a década de 90 do século passado, consolidou-se a vitória do capitalismo triunfante sobre o comunismo decadente, pondo fim à então Guerra Fria. Seguiu-se um período de relativa euforia para quem via então a abertura de uma era de paz, ainda que de uma nova “pax romana”, mantida e controlada pela potência remanescente e triunfante: os Estados Unidos.
Flávio Aguiar para a RFI
Lembro-me de declarações peremptórias e efusivas de colegas meus nos estudos literários, de que a era de estudar as literaturas nacionais chegara ao fim. “Nação” seria um conceito superado, os nacionalismos todos naufragavam. Era o triunfo total da “globalização”. Não só a economia se globalizava, sobretudo a financeira; globalizavam-se também os espíritos, os corações e as mentes.
Mas desde então, o que se viu nestes últimos trinta anos foi a lenta, segura e gradual, também por vezes dramática, corrosão deste “espírito globalizado”. E os nacionalismos renasceram, com força e virulência.
Na Europa, o primeiro sinal desta tendência desabrochou com o colapso do mundo comunista e o fim do pacto de Varsóvia, dando lugar ao renascimento de uma miríade de “pequenas e médias nações”, do Mar Báltico ao Mar Negro, da Estônia à Bulgária e… à Ucrânia. Paralelamente acontecia a dissolução da antiga Iugoslávia. Esta crise levou à sangrenta guerra do Kosovo, quando a OTAN interferiu à margem da ONU, bombardeando áreas sérvias, inclusive a capital Belgrado.
Desde então os nacionalismos europeus foram vistos como marcas de grupos de extrema-direita, reticentes diante da União Europeia e da adoção do euro como moeda única, hoje vigente em 19 países. Ao mesmo tempo, na América do Norte a crise financeira aberta em 2008 terminou por abrir caminho para o “America First”, de Donald Trump, eleito em 2016, revigorando o nacionalismo dentro dos Estados Unidos.
A atual guerra da Ucrânia veio remexer este quadro, provocando um embaralhamento ideológico que ainda não se sabe aonde nos levará, mas que colocou o último prego no caixão mortuário do “fim das nações e dos nacionalismos”. Tudo, de todos os lados, é justificado em nome de alguma forma, mesmo que disfarçada, de “nacionalismo”.
Soberania nacional
É evidente que Vladimir Putin se apoia no nacionalismo russo - de estilo mais czarista do que soviético - na tentativa de captar apoio interno para a invasão da Ucrânia.
Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano, enfatiza a defesa da pátria ameaçada para justificar o prolongamento de uma guerra que dificilmente vencerá e que vem devastando seu próprio país. A mídia mainstream do Ocidente se esmera em pintá-lo, além de um “campeão da democracia”, como um heroico líder de um país-Davi que enfrenta um desmesurado Golias imperialista. Para tanto, alguns comentaristas não hesitam em se valer de uma hipérbole - figura de linguagem do exagero - comparando-o a Winston Churchill diante do fantasmagórico Hitler.
Mas a coisa vai além. Defensores irrestritos da Ucrânia ou do governo ucraniano, de direita ou de esquerda, invocam o princípio da “soberania nacional” para justificar tudo, até mesmo a ideia, hoje periclitante, da adesão daquele país à OTAN. Simpatizantes da Rússia, mesmo que críticos da invasão, lembram o direito de autodefesa de Moscou perante à expansão da OTAN, absorvendo países da antiga União Soviética ou do finado Pacto de Varsóvia.
A própria OTAN parece tender a se tornar cada vez mais porta-voz dos interesses e da política dos Estados Unidos, dispondo-se a tutelar militarmente a Europa inteira. Neste continente há uma tendência a aumentar os investimentos militares - como no caso da Alemanha - o que não deixa de fazer ressoar timbres nacionalistas. Há ainda quem diga que o interesse norte-americano na tensão e no conflito visa, entre outras coisas, diminuir a dependência europeia em relação ao gás russo e aumentar a mesma dependência do continente em relação aos gás norte-americano, mais caro.
Por fim, vale lembrar que alguns analistas sublinham que o fornecimento crescente de armas à Ucrânia pode fazê-las parar nas mãos de grupos de extrema-direita, dentro e fora deste país.
Ao mesmo tempo, se Vladimir Putin reprime opositores da guerra em seu país, Zelensky suprime atividades de partidos de oposição. Portanto, ninguém venha me dizer que “nacionalismos” e “nações” sejam letra morta no (des)concerto da geopolítica mundial. |