|
Description:
|
|
Em torno da pandemia do Corona Vírus multiplicam-se as perguntas e continuam escassas as respostas seguras. Mas algumas poucas certezas vieram à tona, recentemente.
Flávio Aguiar, analista político
Uma destas certezas é a de que a variante Delta, veloz, mais contagiosa e mais violenta do que as anteriores, assumiu a liderança e vai ganhando a medalha de ouro nesta, bem, digamos “competição” entre elas.
Outra certeza: o “caso Delta” sentou praça na política europeia nas últimas e certamente nas próximas semanas.
Em relação a este surto dentro do surto do Corona, a variante Delta reavivou duas metáforas para a pandemia: a da gangorra, com seu sobe-desce, e a da sanfona, com o abre-fecha de seu fole.
Na Alemanha, por exemplo, o mês de julho mostrava-se promissor, com as taxas de incidência e letalidade em nível baixo. Entretanto aquele mês terminou e entrou o de agosto com a elevação da taxa de incidência, e dentro dela, a subida percentual da variante Delta, hoje responsável pela grande maioria dos novos casos.
Esta circunstância fez a pandemia provocar um pandemônio dentro do governo alemão e seus arredores oposicionistas, premidos pela proximidade da próxima eleição em 26 de setembro, com a sucessão de Angela Merkel em jogo.
O ministro da Saúde, Jens Spahn, da União Democrata Cristã (CDU), com apoio do Instituto Robert Koch, órgão responsável pelo estudo e controle de epidemias, dispôs-se a agir com severidade. Propôs adotar controles mais rígidos sobre viajantes, tanto aqueles que chegam por via aérea quanto aqueles que chegam por terra; restringir o acesso de pessoas não vacinadas a locais e eventos públicos, como grandes lojas, restaurantes, teatros, cinemas, praças de esporte e até cabeleireiros.
Seu argumento principal: agir agora para não ter de agir com mais severidade quando o outono chegar. Aventou-se a possibilidade de cobrar pelos testes rápidos, para forçar as pessoas a se vacinarem.
Entretanto sua disposição encontrou resistências até mesmo dentro de seu próprio partido. Seu correligionário Peter Altmeier, ministro da Economia e de Energia, logo descartou a possibilidade de um novo lockdown.
Reunião antecipada
Políticos do Partido Social Democrata, SPD, parceiro no atual governo, mas rival na futura eleição, mostraram-se reticentes quanto a restringir o acesso de pessoas não-vacinadas ou testadas a locais públicos.
Até mesmo a chanceler Angela Merkel mostrou-se reticente, dizendo ser mais favorável a uma política de convencimento, ao invés de uma de restrições e de tornar a vacinação obrigatória.
Resultado: uma reunião da chanceler com os 16 governadores das províncias e cidades-estado (Berlim, Hamburgo e Bremen) do país, prevista para o final deste mês, foi antecipada para a próxima terça-feira, 10 de agosto. Na pauta, entre outros temas, o que fazer para acelerar a vacinação e o que fazer com quem não se vacinou ou não quer se vacinar.
Na oposição, a candidata a chanceler do Partido Verde, Annalena Baerbock, apoiou as medidas restritivas; já o FDP, Freie Demokratische Partei, manifestou-se contra elas. O candidato a chanceler pela CDU e favorito, Armin Laschet, vem mantendo um prudente “silêncio obsequioso” a respeito, pelo menos até o momento.
Variante Delta em outros países europeus
Mas os sobressaltos não se limitam à Alemanha. Também atingiram a França e a Itália. Na França, nos últimos dias, cresceram as manifestações em todo o país contra as medidas sanitárias, que incluem agora a adoção de um chamado “passaporte sanitário”(teste válido, certificado de vacinação ou comprovante de cura), obrigatório para acesso a locais públicos.
Na Itália, hackers invadiram os computadores de num centro de vacinação, forçando a suspensão do serviço.
Em toda a Europa, os partidos de extrema-direita vêm tentando capitalizar o descontentamento diante das restrições ou o negacionismo diante da pandemia. Louvam exemplos como o de Madri, na Espanha, cuja prefeita, do Partido Popular, que com frequência recorre ao apoio do extremista VOX, recusou-se a fechar o que quer que seja para combater a pandemia.
Uma última certeza paira sobre tudo e sobre todos: a pandemia veio para ficar ainda por muito tempo entre nós, com seu ritmo de sobe-desce da gangorra, ou a música soturna de seu fole que abre e fecha. |