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Esta guerra que ora se encerra, basicamente entre os Estados Unidos e os Talibãs, no Afeganistão, tem duas originalidades. Número 1: foi a mais longa guerra da história dos Estados Unidos: 20 anos. Número 2: seu desenlace foi fulminante: nove dias, a partir da ofensiva final dos Talibãs.
De resto, o confronto exibiu a repetição agravada de uma série de “cacoetes” de suas intervenções, desde a década de 50 do século passado.
Os Estados Unidos, através da CIA no bastidor ou da intervenção direta, se especializaram em reprimir as esquerdas, desorganizar movimentos nacionalistas, instalar ou apoiar governos que terminam sendo opressores e corruptos.
Em 1953 depuseram o governo nacionalista de Muhammad Mossadegh no Irã. O que restou organizado foi o movimento religioso xiita. Deu no que deu.
No Afeganistão aconteceu a mesma coisa: apoiaram e financiaram os radicais islâmicos, inclusive a Al Qaeda, contra o governo comunista nos anos 80, como parte de sua política de sufocamento da União Soviética. Na prática, abriram caminho junto com a Arábia Saudita e o Paquistão, para o surgimento dos Talibãs. Estão colhendo o que semearam.
Outra característica, comum tanto à antiga Guerra do Vietnã no século passado quanto à do Afeganistão, neste: ao se virem obrigados a empreender a retirada, passaram por cima de seus aliados, abandonando-os à própria sorte, indo negociar diretamente com o inimigo. Foi assim com o governo de Richard Nixon, em 1972; também com o governo Trump, em 2020.
Com frequência, ao se retirarem, deixam atrás de si países devastados e degradados. Foi assim no Iraque e na Líbia. Aconteceu o mesmo na Síria, com a diferença que o esforço para derrubar Bashar al-Assad fracassou, como era de se esperar, dada a conhecida coesão do Exército Sírio.
Na América Latina, para “defenderem a democracia”, patrocinaram golpes de estado ditatoriais e sanguinários.
Impacto na Europa
E há o capítulo das drogas. No Vietnã a heroína e o ópio campeavam à solta entre suas próprias forças. O Afeganistão de hoje é o maior produtor e negociador de ópio do mundo, responsável, dizem as estatísticas, por 90% da circulação mundial da droga e por um terço do seu PIB.
De quebra, arrastaram nestas aventuras mal planejadas seus aliados mais próximos, que, na sequência, também se veem na circunstância de administrar o desastre.
No Afeganistão 40 países do mundo inteiro se envolveram na intervenção, com destaque, no caso da Europa, para o Reino Unido, a Alemanha e a França.
Diante do debacle do governo de Cabul, estes países e outros no continente têm de administrar ou de reprimir a inevitável maré de refugiados. Ou seja, pelo menos simbolicamente, os Talibãs também invadiram a Europa.
A questão é particularmente espinhosa na Alemanha, às portas de uma eleição nacional em 26 de setembro. O day after do Afeganistão intensificou as incertezas. O Partido Social Democrata (SPD) vem crescendo e encostando nas expectativas de voto (21 a 22 ou 23%) da União Democrata Cristã/União Social Cristã de Armin Laschet, um político que ainda está longe de ter o carisma de Angela Merkel. Os Verdes, que seis meses atrás eram os favoritos, estão agora na terceira posição.
Na França, o presidente Emmanuel Macron advertiu que a catástrofe afegã pode favorecer o recrudescimento de ataques terroristas na Europa.
Uma coisa é certa: no esforço de captar aliados e o apoio da opinião pública mundial, os Estados Unidos agitaram seguidamente falsas bandeiras: o exemplo mais grave foi o das “armas de destruição em massa”, no Iraque, que não existiam. Ou então substituíram a análise objetiva da realidade por fantasias retóricas. Ao invés de reconhecerem a fragilidade do governo que instalaram em Cabul, propalavam a suposta eficácia do exército afegão, que nunca existiu.
Noves fora, resta aos governantes europeus e de outros quadrantes o gosto amargo da desilusão. Que lições tirarão desta trágica comédia de erros? É possível que nenhuma, pela obrigação de defender seu aliado e líder, os Estados Unidos, e culpem apenas os afegãos pelo fracasso da empreitada. Quanto a estes, seu futuro dependerá agora do que os Talibãs de fato farão no governo, e do que a China, o Irã e a Rússia lhes oferecerão como alternativas. |