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A peça de Jean Cocteau "Os Pais Terríveis" está em cena no teatro Hebertot, em Paris, até 30 de Abril. "É engraçado porque há certas coisas que suscitam mais o riso em certas gerações. É uma das coisas bonitas do teatro é que se faz com o público. Há uma energia que nos chega e que devolvemos, num ciclo de energias", conta a actriz Maria de Medeiros.
"Os Pais Terríveis" retoma todos os códigos do vaudeville para produzir situações, ritmos e diálogos que pulsam uma energia cómica. "O que alimenta esta máquina infernal é a composição de todos os elementos que fundam a tragédia. Cocteau pinta um retrato terrível das devastações produzidas pelo sentimento universal do amor", escreve o encenador Christophe Perton.
A peça traz à superfície tumultos amorosos de uma família. Para além das aparências, o encenador Christophe Perton lembra que o combustível desta máquina é constituído por todos os elementos que fundaram a tragédia. “Sem concessão, sem compromisso, Jean Cocteau disseca os corpos atrofiados pela doença que é o amor", descreve o encenador. Christophe Perton adapta e dirige o diabólico vaudeville de Jean Cocteau com Charles Berling, Muriel Mayette-Holtz e Maria de Medeiros.
"É uma peça muito intensa que está sempre a oscilar entre momentos cómicos e momentos dramáticos com grande investimento emocional e corporal. Há uma vivacidade no texto que procuramos realçar. É uma peça divertida, intensa", descreve-nos a actriz franco-portuguesa Maria de Medeiros, que interpreta a personagem Léonie.
A peça foi apresentada pela primeira vez em 1938 e foi proibida após nove apresentações. "A peça tem inúmeros aspectos e quando estreou, em 1938, foi considerada escandalosa, como sendo um incentivo ao incesto. Trata-se na verdade de uma crítica da família, em torno de uma personagem de uma mãe que ama, de forma desmesurada, o filho. Um amor tão extremo que leva à tragédia. São temas que são de actualidade", explica a actriz.
Em cena, os cinco actores oferecem-nos uma confluência de arte dramática e comédia. Cocteau consegue expor o contraditório do bom e mau em simultâneo. A personagem da tia, Léonie, fascinou Maria de Medeiros, que durante duas horas veste a pele de uma personagem que "manipula a acção, que tenta racionalizar e exprimir o pensamento do próprio Cocteau. Ela é uma especia de corifeu, se nos referirmos à tragédia grega, que tenta organizar as informações e a vida da família. Estamos sempre entre uma dualidade de ordem e desordem, de racionalizar e inconsciente".
Nesta peça, Jean Cocteau mostra que "a família é um espaço tremendamente teatral. É dentro do núcleo familiar que fazemos os maiores números, somos todos actores. É muito divertido porque está tudo na família, todas as contradições da sociedade já se encontram aí", explica Maria de Medeiros.
"É engraçado porque há reacções do público mais jovem e mais velho. Nos momentos em que riem, por exemplo, há certas coisas que suscitam o riso em certas gerações mais do que outras. Já estamos em cena há dois meses. É uma das coisas bonitas do teatro é que se faz com o público. Há uma energia que nos chega e que devolvemos num ciclo de energias", conta. |