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Estreou esta terça-feira à noite em Bordéus a peça “Pour que les vent se lèvent”, “Para que os ventos se levantem: uma Oresteia”. Um texto escrito a partir da Oresteia de Ésquilo, aqui adaptado, actualizado e “desviado” pelo dramaturgo franco iraniano Gurshad Shaheman e com a encenação de Catherine Marnas e Nuno Cardoso.
Nesta mais antiga das tragédias, Tróia é o nome de guerra de todo o Médio Oriente, Agamémnon e Orestes são os emblemas do imperialismo e populismo e os coros são feministas e ecologistas. Em cima do palco um elenco de 12 jovens actores e actrizes franceses e portugueses. Um exercício bilingue num espectáculo que interroga os alicerces da democracia.
Ao microfone da RFI a encenadora francesa Catherine Marnas explicou este “olhar externo europeu da cultura europeia”.
“Este trabalho sobre a Oresteia foi um projecto, obviamente, entre dois directores europeus, mas não do mesmo país, para dizer: qual é a raiz da democracia, da nossa cultura e da nossa civilização? São os gregos. Por isso a ideia de voltar a uma época em que a democracia era muito questionada. Achamos que seria bom reunir dois países para falar sobre isso e, além disso, encomendamos uma Oresteia contemporânea a Gurshad Shaheman, que não é europeu. Então isso é interessante, é esse olhar externo europeu para falar da cultura europeia.
Necessidade de actualizar os clássicos? Não sei. É uma grande questão que, por vezes, o Gurshad coloca: precisamos mesmo de mostrar autores antigos e de os confrontar? Quando olhamos à nossa volta, estamos mergulhados na cultura grega. Basta ver, por exemplo, o mito de Édipo. É incrível que tais palavras, tais mitos tenham sido impregnados na realidade humana e nos persigam até hoje. Os significados mudam. É como uma camada que colocamos no tempo, ou seja, o tempo não é o mesmo, necessariamente a escuta não é a mesma e as respostas não são as mesmas, ou em todo caso as perguntas. Mas, mesmo assim, permanece uma raiz, uma base.
Eu tenho esta particularidade, sou uma amante das línguas. E muitas vezes trabalho em países estrangeiros, com línguas estrangeiras, e até com algumas línguas, confesso, que não entendo nada. Trabalhei na China e não percebo nada de chinês.
Penso que a mensagem passa para outro lugar, passa pelo corpo, passa por outra forma de ouvir, mas não é o caso de uma língua latina como o português porque, como lhe disse, falo espanhol, e com meu "portunhol", consigo desenrascar-me. Para mim não é uma dificuldade, é um prazer."
No final desta estreia no Teatro Nacional de Bordéus, o encenador português Nuno Cardoso deu-nos conta de como chegou a este projecto.
“Eu fiz a Oresteia na prisão há alguns anos e é um texto que me tinha acompanhado, um texto de Ésquilo.
No âmbito da Saison Croisée (Temporada Cruzada) foi-nos posta esta possibilidade de podermos colaborar com Bordéus. Conheço bem Bordéus, já tinha sido professor aqui na escola, tinha feito uma peça para o TNBA [Teatro nacional de Bordéus Aquitânia] em 2013 ou 2014.
Através da Saison Croisée (Temporada Cruzada) entrámos em contacto um com o outro, eu e a Chaterine [Marnas], falei-lhe desta vontade de revisitar Oresteia, até porque temos um problema de défice democrático, etc e queria revisitar este texto fundador. Ela mostrou-se interessada, encontramo-nos e chegámos ao nome do Gurshad [Shaheman].
A partir daí, começámos em pré-produção ao longo deste tempo e esta pré-produção implicou encontros, implicou encontros com o autor, encontros entre os três, implicou a selecção de actores franceses, a selecção de actores portugueses, audição e depois um processo de trabalho dividido entre o Porto e Bordéus, que acabou agora.”
Trazer estas temáticas de um texto clássico para os dias de hoje é o quê, é mostrar que a história repete-se?
“Aquilo que se chama um texto clássico não é um texto clássico. Os únicos textos que não são contemporâneos são os textos que a gente se esqueceu. Os outros são sempre contemporâneos, são sempre actuais. Como a Catherine disse, o olhar muda, a percepção das palavras muda. Portanto, os textos que chegam até nós do passado são textos que resistem à erosão dos sentidos e do pensamento.
Este exercício de revisitar um texto clássico e matricial é um bocadinho uma espécie de desafio a nós e ao próprio espectador para, de um lado, promover uma nova dramaturgia, do outro, para nos centrarmos nos problemas matriciais que são a raiz, de alguma, forma da construção ideológica da sociedade ocidental.
A ideia de que passámos do olho por olho, do dente por dente para uma espécie de sistemização da sociedade e racionalização do dispensar da justiça, o estado de direito por assim dizer, é a raiz fundamental do nosso estado e o nosso estado neste momento encontra-se doente. Porque muita gente põe em causa o que é o estado direito, muita gente põe em causa o que é essa raiz e às vezes pelas razões erradas. Ou seja, nós às vezes devolvemos aos dirigentes ou devolvemos aos políticos a responsabilidade da erosão da nossa sociedade e essa responsabilidade é, acima de tudo e em primeira instância, nossa como cidadãos e como público e como criadores.
Portanto, o processo em si foi estruturado um bocado como isso, não só o desafio a um olhar extra europeu, de uma minoria, para revisitar este texto que é tão fundamental para a construção da nossa sociedade, como um próprio processo criativo que implica diálogo, portanto exercício democrático. E o exercício democrático é acima de tudo o exercício da perda, não é o exercício do ganho, é a capacidade de negociação que é, de alguma forma, factor de majoração de todo este processo, um diálogo entre vários olhar, todos eles iguais, todos eles diferentes e é sobretudo, também, um encontro de línguas para descobrir que o que é importante é a nossa capacidade de nos juntarmos independentemente da linha, independentemente do género, independentemente da raça, independentemente da geografia para seguir uma história e reflectir sobre essa história. Quando isso acontece não há uma única barreira, porque estamos num sítio profundamente humano e humano somos todos.”
A peça “Pour que les vent se lèvent”, “Para que os ventos se levantem: uma Oresteia” vai continuar até dia 8 de Outubro em cena, no Teatro Nacional de Bordéus Aquitânia, depois segue viagem para Portugal onde, a 20 de Outubro, se estreia no Teatro Nacional de São João.
A peça baseia-se na Oresteia de Ésquilo, mas aqui foi adaptada, actualizada e “desviada” pelo dramaturgo franco-iraniano Gurshad Shaheman e conta com a encenação de Catherine Marnas e Nuno Cardoso.
"Pour que les vent se lèvent”, “Para que os ventos se levantem: uma Oresteia” integra a programação da Temporada Cruzada Portugal-França. |