|
Description:
|
|
Que lições tirar de Molière 400 anos depois do seu nascimento? Fomos perguntar ao encenador português João Mota, um militante no teatro e na vida. O director artístico do Teatro da Comuna, uma companhia independente que cumpriu 50 anos, encenou peças de Molière, em tempos, e o que lhe interessa no dramaturgo francês é ele ter sido “sempre um opositor” e ter abraçado, nos textos, “a defesa dos mais pobres” e “o triunfo do povo”.
João Mota recebe-nos em sua casa. De braços abertos e com uma genuína vontade de partilha. A conversa acontece em torno de Molière e de um necessário sobressalto de consciência através do teatro e dos temas que atravessaram 400 anos. Ontem e hoje, em cima e fora do palco, a luta pela liberdade e pela transparência continua.
Quatrocentos anos depois do nascimento de Molière, que lições tirar do dramaturgo francês? A resposta de João Mota é imediata: “Quem triunfa é sempre o povo. Nas ‘Velhacarias de Scapin’ é a revolta dos criados contra os patrões (...) É o triunfo do povo, é o triunfo dos criados”. Além disso, é também a crítica “aos mercadores” e, com eles, à burguesia.
João Mota levou a palco, em tempos, “Tartufo” e "As Velhacarias de Scapin”. O encenador e director artístico do Teatro da Comuna, em Lisboa, continua a ver em Molière temas transversais e intemporais e, sobretudo, a esperança de um sobressalto de consciência junto do público porque Molière “foi sempre um opositor como qualquer comediante, actor ou encenador”. Como ele próprio, João Mota. Esse sobressalto passa por “falar de amor e liberdade”, mas também resistência.
“Foi sempre um opositor, no bom sentido da palavra, um indivíduo que quer a liberdade e quer igual para todos. Tartufo não é mais do que isso tudo: a mentira, a aldrabice, onde se mete a igreja, a caridade, toda a falsa caridade...É uma peça verdadeiramente espantosa onde chega a aldrabice. Ele denunciou sempre isso tudo até que, a dado momento, teve que fazer também umas coisas para divertir e acalmar os amigos da igreja e do rei”, descreve.
Se Molière resiste até hoje “é porque exactamente é um opositor ao poder”, insiste João Mota. E também porque “a sociedade até hoje não conseguiu ultrapassar a barreira da falsidade, da mentira”. Molière é, por isso, um autor eminentemente político. “Defende sempre o povo, por isso, é político, claro. Separa as classes e o inteligente é sempre o povo”, argumenta.
Nas suas encenações dos textos do dramaturgo francês, João Mota excluiu, logo à partida, cenografias naturalistas ou “museológicas”, algo que aprendeu dos tempos em que trabalhou com o mestre britânico Peter Brook. “O actor é que tem de estar vazio, não é o espaço”, avisa. Ou seja, “o teatro não é um museu” porque é “uma arte viva com um grupo de comediantes e técnicos e um grupo de público”.
“O texto é tão importante que só precisa de actores, como Molière fazia, tinha actores. Não havia projectores, não havia nada disso. Hoje, para fazer Shakespeare é preciso 500 projectores, para fazer Molière é preciso mais de 200 projectores. Porquê tanta coisa? Porquê? O teatro tem que voltar a ser o que era que é a linguagem pura, dos homens, a transparência de uns para os outros. Mais nada.”
João Mota é, por isso, contra cenografias ditas de época ou museológicas. Até porque “o público renasce a ver Molière como se fosse uma crítica de hoje”, ou seja, são temas que atravessam o tempo e, por isso, não se devem datar com roupagens forçadas. “Basta um chão, uns móveis, um pormenor simbólico a lembrar coisas antigas, às vezes, porque o público não é burro, o público pensa. O público não é estúpido, cuidado. Há uma ideia de que o público é estúpido e então mostra-se tudo. É ridículo. É ridículo”, alerta o encenador.
Quanto ao legado de Molière, hoje, João Mota resume: “A grande luta pela liberdade, a denúncia, a defesa daqueles que, em princípio, não têm defesa perante o poder, a inteligência que é a coisa mais importante porque ser rico ou ter poder não significa inteligência. O povo tem ‘la ruse’, tem uma coisa que é muito difícil ter: a inteligência e a esperteza (...). É esse lado que me interessa de Molière. É a luta que ele sempre travou contra o clero, contra aquela gente toda e foi sempre a defesa dos mais pobres, dos inteligentes.” |