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A exposição "Tudo o que eu quero — Artistas portuguesas de 1900 a 2020" reúne cerca de 200 obras produzidas por 40 mulheres, no Centro de Criação Contemporânea Olivier Debré, em Tours, até 4 de Setembro.
A exposição esteve na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e é desde a semana passada apresentada ao público francês. O ponto de partida para construir a exposição "Tudo o que eu quero" foi o de fazer uma reparação da visibilidade das artistas mulheres durante séculos e perceber o ponto de viragem em que de musas também podem ser criadoras. A curadora Helena Freitas quis expor as conquistas de espaços e vozes de 40 artistas portuguesas.
RFI: Como é que se chega a estas mais de 200 obras e 40 artistas, expostas em "Tudo o que eu quero"?
Helena Freita: Como fazer uma reparação da visibilidade destas mulheres, que durante séculos foram sobretudo musas. Elas sempre foram muito representadas na arte, mas na condição de musas, não na condição de criadoras, isso só aconteceu muito recentemente. Elas conquistaram o direito a ter uma voz, de ter o próprio olhar e nesta exposição esse é o ponto de partida: olhar para o exterior para conquistar uma consciência artística.
Deste conjunto de 40 artistas que seleccionamos, oito delas fizeram os seus estudos em França. Algumas tiveram longas estadias cá. Por exemplo, Lourdes Castro, viveu mais de vinte anos em Paris e só muito recentemente é que teve o devido reconhecimento. Não me está a perguntar por que motivo é que estas artistas não são conhecidas, porque eu penso que isso tem muito a ver com o próprio país, com mais de quarenta anos de ditadura.
Esta exposição é um gesto político da antiga ministra da cultura, Graça Fonseca, me dirigiu para fazer esta exposição, com o tema as mulheres artistas. Como fazer uma reparação da visibilidade destas mulheres, que durante séculos foram sobretudo musas. Elas sempre foram muito representadas na arte, mas na condição de musas, não na condição de criadoras, isso só aconteceu muito recentemente. Elas conquistaram o direito a ter uma voz, de ter o próprio olhar e nesta exposição esse é o ponto de partida: olhar para o exterior primeiro para depois dar início a uma consciência de uma acção artística. De alguma maneira esta exposição serve para fazer essa reparação e é fantástico poder fazer essa reparação não só em Portugal, mas também em França.
É um percurso ao longo de mais de cento e dez anos de história da arte, como disse durante a visita aos jornalistas. Como é que se organiza uma exposição com obras, que durante tanto tempo não tiveram espaço para existir?
Eu acho que há um trabalho de conhecimento prévio que nos permite também fazer as escolhas não é? Uma curadoria é sempre uma escolha. Eu e o Bruno, que é comissário comigo, escolhemos quarenta artistas, mas poderíamos ter escolhido cem ou mais porque há de facto a produção e não estão aqui as melhores artistas. Não é esse o conceito da exposição. O conceito da exposição é de facto a procura das obras, das obras certas que nos permitiram conduzir a uma narrativa de aproximação, não só aos artistas de várias gerações, como de várias disciplinas com várias sensibilidades, com diálogos entre as próprias obras. O ponto de partida da exposição foi o auto-retrato da Aurélia de Sousa. Foram exactamente as obras e nós fomos encontrando com esta atenção nova, a partir deste desafio, de criar um circuito a partir das obras. Isso para nós foi um trabalho muito muito estimulante e acho que criou um campo de ressonância e de diálogo e sensorialidade visíveis nesta exposição.
A exposição parte do interior para o exterior, bem como este percurso do papel da mulher artista, do papel da mulher do interior para o exterior.
A exposição termina com uma obra de Joana Vasconcelos.
É uma obra, não das mais conhecidas da artista, mas que nos agrada muitíssimo. Há um cruzamento entre o objecto que ela apresenta. Ela trabalha sempre a partir da multiplicação dos objectos, que encontra do quotidiano, que são objectos associados ao feminino, ao trabalho feminino ou à utilização desses utensílios pelas mulheres.
Ela faz um cruzamento entre esse objecto e o título. O objecto são escovas que escovam e lavam o chão são escovas daquelas poderosas e com isso faz um objecto a que dá o nome de Brush Me. Isto do ponto de vista de uma afirmação muito feminista é de facto muito eficaz e é um trabalho da Joana Vasconcelos que, se não me engano, é de noventa e nove. É um trabalho bastante antigo. Também apresentamos uma aguarela bastante surpreendente. Em Lisboa, apresentámos a noiva, que era uma obra mais espectacular no sentido do espectáculo da sua visibilidade, que é um lustre todo feito a partir de tampões. É um belíssimo objecto chamado "A noiva" (La mariée).
Em "Tudo o que eu quero" acompanhamos a evolução da mulher artista portuguesa.
Tudo o que elas querem e tudo o que nós queremos é tudo. É todo o nosso lugar na sociedade e no mundo. Tudo o que eu quero é uma frase que tem toda a relevância em 1900 como em 2022. Atenção que a história das mulheres na arte é muito recente. Nada está adquirido. Estamos a falar de um ponto de vista ocidental. Tudo o que eu quero, este tudo é muito importante. É importante na criação de uma artista portuguesa e tudo o que elas querem de facto é ser artistas.
É ter esse protagonismo enquanto autoras, enquanto criadoras e terem os meios, as possibilidades. A grande maioria mulheres não têm as mesmas acessibilidades ao trabalho que os homens. Porque têm dos filhos, muitas tarefas domésticas.
Durante a visita de imprensa, falou do facto de as mulheres, no século passado, não assinarem com os seus nomes, mas talvez usarem os apelidos do marido...
No caso foi a Maria Helena Vieira da Silva. Que não assinava Maria Helena. Assinava Vieira da Silva. Deixou cair a Maria Helena exactamente para não ser identificada como uma mulher e querer ser nem homem nem mulher artista e é isso é que é fundamental. Ser artista era fantástico e chegar ao fim de uma exposição e não se perceber qual é o género, porque não interessa, mas isso ainda falta e aconteceu durante séculos e séculos.
Mostrar é também uma forma de combate?
Claro que é. Mostrar é sobretudo uma forma dec ombate. Fazer e poder mostrar e podermos mostrar em vários palcos. E se palcos são internacionais, melhor .
Como curadora mulher desta exposição também sente que é uma forma de luta?
Sim e aprendi imenso. Adorei fazer esta exposição. O que não me impede de adorar de fazer exposições com homens, mas de facto foi muito excitante procurar e ir reparando o que falta ver. Dar visibilidade a obras de artistas que ninguém conhecer e ver o espanto e admiração nos olhos dos nossos parceiros internacionais.
E não é tarde para reparar?
Não, nunca é tarde.
RFI: Patrícia Garrido, apresenta obras como "Móveis ao cubo". Que obra é esta?
Patrícia Garrido: Uso objectos do quotidiano, digamos objectos domésticos, mas eu penso que o que me interessa mais é construção de memórias a construção de tempos que desapareceram e uma recuperação de tempos de memória. Tenho uma quase que uma necessidade de conservar coisas e de recuperar coisas que desapareceram ou inventar tempos, passagens, medidas de tempos que não existem na nossa vida ou que não são considerados coisas... que nem pensamos e que fazemos todos os dias.
Por exemplo?
Os metros que caminhamos dentro de casa ou tudo o que comi durante quinze dias. Os passos que dei em volta dum espaço determinado. Fiz uma série de registos que correspondem a passagens de tempo da minha própria vida e de vidas de outras pessoas. No caso desta peça de que fala são móveis que pertenciam originalmente a casas que foram desmanchadas por familiares. Não sei quem eram os proprietários das casas. Os móveis foram vendidos eu comprei a mobília inteira de casas. Recortei e compactei-as em cubos de uma forma absolutamente abstracta para mim que é a forma mais abstracta e que é uma espécie de compacto da memória de quem viveu nessa casa.
Por que motivo esta questão de trabalhar a memória. De onde é que vem?
Para mim é fundamental é uma coisa que eu tenho desde desde criança. A necessidade de registar, de não perder aquilo que passava. Sempre tive uma angústia da perda do tempo, da perda dos tempos das pessoas que passaram antes de mim e que desapareceram e que eu não conheci. Em relação às quais eu não consegui conhecer os hábitos pessoais ou histórias pessoais.
Era um pânico, uma angústia e ao mesmo tempo uma curiosidade enorme. Eu acho que é uma coisa pessoal, se calhar, da necessidade de registar tempos que eu não tive, pelos quais eu não passei e que se calhar me fazem falta de alguma maneira.
A consciencialização do próprio tempo...
O tempo não o perdemos vivemo-lo, mas o facto de eu registar se calhar conserva-o de alguma forma e não podemos olhar para ele depois.
A Helena Freitas falava há pouco que esta exposição serve para recuperar injustiças provocadas durante o tempo, sobretudo relativamente à visibilidade entre géneros. Como artista mulher sente que ultimamente essa recuperação de injustiça está a ser feita?
É sempre um tema complexo, sinto. Posso admitir que de facto é a injustiça existiu porque muitas mulheres trabalharam de uma forma extraordinária e fizeram obras incríveis e não foram reconhecidas no seu tempo de vida. No meu tempo de juventude e talvez até hoje já não posso dizer que isso exista de uma forma tão radical. Obviamente nunca de me sentir discriminada drasticamente pelo facto de ser mulher. Pude sempre fazer o que o quis fazer. Não quer dizer que eventualmente não possa ter efeito numa situação ou outra, mas não não poderei dizer que me sinta injustiçada no sentido directo da do género ter sido determinante no facto da minha carreira não não ser mais relevante.
Mily Possoz, Rosa Ramalho, Maria Lamas, Sarah Affonso, Ofélia Marques, Menez, Ana Hatherly, Maria Antónia Siza, Graça Morais, Maria José Aguiar, Rosa Carvalho, Ana Léon, Ângela Ferreira, Joana Rosa, Ana Vidigal, Armanda Duarte, Patrícia Garrido, Gabriela Albergaria, Susanne Themlitz, Maria Capelo, Patrícia Almeida, Carla Filipe, Filipa César, Inês Botelho, Isabel Carvalho e Sónia Almeida são outras artistas representadas.
A exposição está patente no Centro de Criação Contemporânea Olivier Debré, em Tours, no âmbito do programa geral da Temporada Cruzada Portugal-França. |